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quarta-feira, 4 de julho de 2012

Os media da nossa desconfiança..

PROCIDADE

Os media da nossa descrença ...neste país de desencantos:

Seria absolutamente surpreendente a passividade (ou indiferença) com que jornais e televisões se têm colocado quer face ao currículo do Primeiro-Ministro, quer agora face a esta revelação gritante da licenciatura de Miguel Relvas, quando confrontada com o frenesim noticioso, judicioso e linchatório com que trataram o anterior Primeiro-Ministro a propósito de assunto e matéria idêntica. Seria ou poderia ser surpreendente. Mas não é. Porque há muito que é indesmentível a agenda política dos media, independentemente de quem lha marca ou impõe, sendo certo que em alguns casos são até as prima-donas do jornalismo que partem para verdadeiras cruzadas justiceiras com fins e motivações pessoais ou narcísicas, como foram os casos de Manuela Moura Guedes, do seu assessor e marido e de Mário Crespo pupilo do Seu General. Não surpreende. Mas choca, porque revela falta de pudor, falta de sentido de Cidadania e falta de noção e sentido Democráticos.
Comparados os processos de Sócrates e Relvas, o exame de Inglês Técnico num domingo do primeiro redunda numa mera questão administrativa; é impensável imputar-lhe fraude curricular ou de certificação à vista agora  deste exemplo, por mais que o suportem as leis. No caso de Sócrates ninguém quis saber se havia créditos para um RVCC, apenas se discutia se era ou não licenciado. Que dizer agora face a um processo em que alguém que não só tem menos curricula como este é menos susceptível de verificação pública, obteve equivalência por RVCC de 70% ou mas das 36 cadeiras do curso?...
Não sem primeiro deixar vincada a obrigação de se fazer uma cerimónia de reparação nacional a José Sócrates,
importa reiterar que o principal - ou o único - problema é outro e que seria nesse sentido que se deveria reflectir: a doutorite ou a fidalguia e nobiliarquia republicanas. Este fenómeno, outrora mais provinciano, é hoje a marca transversal dos aglomerados urbanos e mais particularmente da capital política e financeira, a Dra Lisboa. Não há deputado, político, secretário, ou assessor, por mais mancebo, incipiente, imberbe ou inepto, que não seja doutor, porque ser doutor basta seja para o que for. Noutros tempos, os doutores das clássicas (cursos de 6 ou 5 anos) chamavam doutores e engenheiros de via estreita[1] aos bacharelados ou aos licenciados pelos institutos (cursos de 4 anos). Mas estes não se reclamavam doutores. Em vez de se evoluir civilizacionalmente, regrediu-se e hoje é doutor qualquer bicho-carpinteiro que tenha uma licenciatura que mais não faz ou para mais não serve senão para lhe lhe atribuir o CAP[2] com vista no exercício de uma profissão nesta - hoje - vasta área dos chamados trabalhadores do conhecimento [3]. Seguindo o povo[4] e suas sentenças, se noutros tempos um burro carregado de livros era doutor, hoje são doutores muitos burros de albarda vaziaÉ doutor quem fez cursos com planos de estudos de seis e de cinco anos, mas também de quatro e agora até de três. E são até estes de quatro e de três (os tais doutores de via estreita) os que mais frequentemente se arvoram e se doutoram em e-mails, ofícios e outro expediente, colocando no local que ficará abaixo da assinatura e em caracteres tipográficos, Dr. Fulano de Tal, ou Cicrana de Tal, Dra.
No nosso regime e mau grado o primado da Cidadania, de nada ou para nada serve alguém com (citando Cindinha Campos), notórios saber e competência e reputação ilibada, pelo contrário. Com excepção de Leonor Beleza e depois de Santana Lopes que no seu tempo de membros de governos chamaram para o desempenho de funções de governação alguém que não era nem do seu partido nem licenciado/a (pela via intra-partidária sempre houve muitos no PS e PSD, como é o caso do próprio Relvas),  justamente por lhe reconhecerem as competências  (falamos da malograda Mª José Nogueira Pinto, não obstante a própria ter também cedido à pressão da doutorite, tendo-se entretanto licenciado e passado a ser a Dra Mª José Nogueira Pinto), não se registam casos em que os referidos notório saber, notória e reconhecida competência e reputação ilibada tenham sido suficientes para nomear um cidadão independente, antes se lhe diz tire uma licenciatura, de contrário passarão adiante de si os doutores licenciados. Mesmo que sejam ineptos, ignorantes, inexperientes  ou desconhecidos. Até já para se fazer carreira política (que começa nas listas da Distrital de cada partido) é preciso ser doutor, ainda que recém-saído da Universidade ou do Instituto, o mesmo se passando no desempenho de cargos na Administração.
Este é o governo que mandou fazer uns pins com a bandeira portuguesa para serem patrioticamente exibidos na lapela de todos os membros e talvez até do do próprio aparelho.
- Dr Passos, Dr Relvas, Dr Mota Soares,
      melhor fora que fizessem um pin para colocar o nome de cada um de vocês, mas sem prefixos. Nada mais tendo este governo que aproveite à Democracia e à Cidadania, podia aproveitar-se pelo menos este legado pedagógico.
[1] - Por analogia das linhas de combóios, a larga, interurbana, e a estreita, urbana ou regional, como era o caso das linhas da Póvoa, do Tua ou do Vouga, por exemplo;
[2] - Certificado de Aptidão Profissional;
[3] -  Trabalhadores do conhecimento - aqueles que fazem do pensamento modo de vida;
[4] - Ocorre-nos que este será o pecadilho da nossa Constituição. Na percepção de grande parte dos portugueses a palavra Povo mantém um estigma de pobreza e insignificância que os impede de se identificarem como Povo o que piora ainda quando a classe média e os doutores afectam a sua desmarcação do povo enquanto classe. Seria curioso experimentar perguntar a Gomes Canotilho, por exemplo, se ele é povo, não sendo difícil adivinhar a resposta...
Talvez tudo tivesse sido profundamente diferente se os Constituintes de 1976 tivessem substituído a palavra Povo e os seus derivados por Cidadão e Cidadania.  Os franceses fizeram-no após a revolução de 1789 (Citoyenneté - En démocratie, chaque citoyen est détenteur d'une partie de la souveraineté ... Les devoirs sont accomplis par les citoyens pour le bien de la collectivité...) e parecem ter sido melhor sucedidos. Mas ainda vamos a tempo.
Procidade




terça-feira, 3 de julho de 2012

a excessiva força da Coercividade

PROCIDADE


Depois destas notícias, já ocorreu uma série de "quatro casos" nos "quatro cantos " do país.
Entretanto, há dias era notícia (versão da SIC) que três adolescentes morrem em despiste de carro furtado após perseguição da GNR. Eram 5, entre os 13 e os 16 anos, três rapazes e duas raparigas; a GNR partiu em perseguição, tendo esta acabado num aparatoso acidente, um dos adolescentes teve morte imediata, outro a caminho do Hospital, outro já no Hospital e há mais dois feridos/as, um deles em estado grave. Ainda na mesma notícia fala a GNR fala para a SIC legitimando a perseguição, tudo decorreu dentro da legalidade

Não houve disparos, houve apenas perseguição. Falou (e legitimou-se e justificou-se) a GNR. E não falou mais ninguém: Os adolescentes não podiam porque 3/5 estavam mortos e 2/5 estavam feridos e hospitalizados, as famílias tampouco porque de luto e a tratar dos funerais. Que a SIC tampouco cobriu. A SIC, que cobre tantos funerais avulsos, tinha aqui, até pela dimensão e expressão da tragédia, justificação para lá estar. Não esteve, não era notícia: morreram (esfarrapados) três adolescentes (que rima com delinquentes) e não se fala mais disso.

Confrontados com mais uma - ou melhor, três - mortes (apesar de desta vez não serem as execuções sumárias que têm acontecido com a GNR) -   contactamos a SIC para reclamar de tão estranho e pilático (Pôncio Pilatos), responderam as relações públicas da SIC: esta estação faz um jornalismo isento, que se limita a dar a as notícias estritas, que não emite opiniões (como se um jornalista não devesse saber que em certas circunstâncias, note-se que nos fascismos e totalitarismos omitir é a melhor (ou pior?) forma de as emitir) e que que estavam em condições de assegurar que a SIC não se limitou a ouvir a GNR, também tentou ouvir os pais das crianças que - naturalmente!!! -  não falaram (ou seja, além de isento, o jornalismo da SIC demonstra uma extraordinária sensibilidade ou inteligência emocional e social).

Assim responderam as relações públicas da SIC quando perguntadas se pode um jornalista (mesmo o isento) deixar de colocar lado a lado os graves crimes (quase sempre relacionados com droga) que cometem - também - soldados e graduados desta força, ou os hediondos crimes do Cabo Costa de Santa Comba, sem que os colegas os persigam levando-os a destroçarem-se contra um poste ou uma parede, ou ainda o caso dos crimes cometidos sobre as Crianças da casa Pia e cujos autores não só não foram perseguidos até uma morte bárbara por dilaceração como - para sua segurança e benefício - quando presos têm cama, mesa, mordomia, médicos e viaturas de transporte ao dispor e quando soltos gozam do pack pulseira electrónica que inclui polícia (ou segurança) privativa.

Assim responderam as relações públicas da SIC quando perguntadas as razões porque apenas se noticia  que morreram num despiste após fuga à GNR três crianças e se omite que foram tragicamente conduzidas para uma morte horrível, mais uma vez, por excesso de zelo da GNR e quando ainda temos na memória o fuzilamento pelas costas de dois adolescentes (Gondomar e Setúbal) cujo gravíssimo crime era conduzir sem seguro e ou sem carta.

Assim respondeu a SIC quando perguntada se não estarão a confundir jornalista com carteiro e se tem presente que numa democracia a coercividade (ou a força), além de dever ser usada com proporcionalidade, não é um instrumento de poderes arbitrários e discricionários, apenas pode ser exercida em nome do Povo e sob o seu escrutínio e, caso não assim não seja, é notícia, assim respondeu a SIC quando perguntada se este uso da força foi proporcional e também democrático, isto é, se foi exercido em nome do Povo, se o Povo Português queria que as crianças fossem assustadas ou perseguidas até se desfazerem contra a parede. "Esta estação faz um jornalismo isento, que se limita a dar a as notícias estritas, que não emite opiniões...

E porque é que apenas ouviram a GNR, desconhecerá o isento jornalista que não estando as famílias em condições, pela protecção / segurança de menores, pelos direitos humanos, pelos Direitos, Liberdades e Garantias, respondem também outras tutelas, a família não a única tutela?


Por outro lado, não podiam/deviam suscitar comentários/comentadores?...Convocam comentadores para as questões mais comezinhas ou fraldiquiras como comentar na especialidade a marca das cuecas do Cristiano Ronaldo (vejam o ridículo destas últimas semanas em que o Sic-ário Nuno Luz – que raio, onde foram buscar um tipo com tão pouco amor próprio – e mais um lote de comentadores seguem atrás do rabo dos jogadores e da selecção para todo o lado, até para a casa de banho, dando-lhe uma importância superior à que tiveram os heróicos astronautas da década de 60. Afinal, o que é que é importante, o que é que é notícia?...

- Os cinco adolescentes não fugiram, porque só um conduz!... Os três adolescentes mortos, o ferido grave e o outro ferido  não se despistaram, porque só um conduz. Dificilmente foram os cinco (a) furtar o automóvel. Mas morreram três, dois estão feridos e um deles em estado grave. Despistaram-se e bateram contra um poste. E se fosse contra outra viatura com outros cinco ocupantes e os mortos dobrassem em número, já seria diferente a notícia?...

- Responda o Nuno Luz: o Despiste foi contra a viatura da selecção, a qual apenas sofreu uns danos frontais e rebentamento de um pneu. Já Era notícia, verdade ou não?... e com foros de última hora apesar dos danos inócuos do autocarro da selecção.

Então, e com este tempero, afinal o Cristiano Ronaldo ia de pé no autocarro e bateu com a sua dura cabeça em qualquer coisa, sofreu umas contusões e vai ficar impedido de integrar a equipa nos jogos do Euro 2012. Já Era notícia, verdade ou não?... E como afinal a perseguição da GNR tinha tido tão nefastas consequências (para a selecção e o Euro) ouviríamos na SIC toda a sorte de comentadores, juristas a discutir a legitimidade e legalidade destas perseguições. Quem sabe, sairia uma Lei no espaço de uma semana!...


A GNR saberia que eram adolescentes. Todos sabemos o tipo de catástrofes a que pode conduzir o pânico de adolescentes assim flagrados. A GNR sabe melhor que todos nós, sabe-o científica, técnica e estatisticamente. Não há, pelos vistos, nada a censurar à GNR, mas um par de coisas temos por certas,


A - Estes adolescentes não são filhos e filhas (ou netos e netas) do Sr Balsemão, não são filhos e filhas de poderosos, de políticos, de magistrados ou de altas patentes da GNR. De contrário, o mesmo jornalista isento já nos tinha notícia da suspensão dos agentes envolvidos e de processos disciplinares em curso.

B - No que toca a este jornalismo isento  nosso coetâneo (jornalismo classe-média), é tempo de recordar assim chegam (ou regressam) os totalitarismos e a repressão: abusando da força ou pouco mais a cada dia com a isenção cúmplice e corporativa de jornalistas e por isso talvez seja altura de lembrar também a parábola que diz que “um dia prenderam os homens da outra cidade, mas não me envolvi, afinal nem sequer o conhecia; um dia prenderam os homens da rua em frente, mas tampouco eram da minha família. Por fim prenderam-me a mim, ninguém, me valeu, ninguém me ajudou. Não percebi"


A - No que toca à GNR, estas perseguições são cobardes e culminam em execuções sumárias num país que se gaba de ter sido o primeiro…a abolir a pena de morte. Mas esta é a GNR que conhecemos desde sempre: chamada de republicana mesmo nos tempos do corporativismo, é proactiva e voluntariosa contra o Povo, persegue e maltrata os fracos, foi sempre BASTIÃO DO PODER e sempre esteve contra a Liberdade e a Democracia. Tem a sua história manchada por estas execuções sumárias durante todo o Estado Novo (lembre-se  Catarina Eufémia e esta não foi, ao tempo, caso único) mas também já em democracia (o pobre operário de Barqueiros - a guerra dos caulinos - que foi assassinado quando a GNR disparou…para o ar)
Aliás, a recolha de Marcelo Caetano na GNR do Carmo a 25 de Abril de 1974 não foi casual, foi a condecoração e a consagração desta força militar repressiva (ou força militar de repressão de proximidade) que há muito não é compaginável com um estado subordinado aos princípios Democrático e de Estado de Direito.


- Temos um exército com uma oprganização e logística (na circunstância, de herança inglesa) que fazem dele, historicamente, um excelente exército.
- Temos uma das melhores, mais incansáveis e competentes polícias de investigação criminal da Europa, senão do mundo civilizado, a PJ;
- Temos uma Polícia para a Segurança Pública de valor inquestionável.


A GNR tem valorosíssimos e irrepreensíveis soldados. Mas é uma forma militar/para-militar e por isso anacrónica quanto à missão e seus fins. Extinga-se esta corporação que se mantém como uma extensão extemporânea do salazarismo[1] e peça-se desculpa ao Povo Português por se ter demorado 40 anos a fazê-lo. Integrem-se os seus soldados, sem perda de direitos ou patente/graduação, ou como Agentes na PSP - e em graduações correspondentes - ou como soldados no Exército - e permitindo que sejam os próprios a escolher! 
Mas para policiamento, a) reestruture-se a PSP, reforme-se a sua mentalidade e cultura policial[2], b) estenda-se esta Polícia a todo o território e para a Urbe como para fora dela,  c) distingam-se bem as polícias de proximidade e as de intervenção, d) crie-se uma polícia de matriz civil, vestida igualmente de azul e aliviada tanto das  ridículas e arcaicas botas de montar com esporas como dos collants napoleónicos, e, de caminho, e) acabe-se com a sobreposição à PSP das polícias de âmbito privado, as Municipais.
...

[1] Como dizia um cronista do DM há um par de anos, "mas que guerra é essa que é declarada tanto às povoações como aos automobilistas que justifica o envolvimento e a manutenção de uma força militar ou para-militar?”

[2] Esta não pode ser toda a - e muito menos a única - imagem ou percepção que a PSP tem de si própria:

http://vidadopolicia.blogspot.pt:

o Ardina

A Univers(al)idade da Usura


                                    "quem distingue ou separa as 'éticas' numa 'ética para a vida', uma ´'ética para os negócios', uma                                         'ética para a profissão', acaba, irremediavelmente, por nem ter nem praticar ética nenhuma". Zef,VR
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Quando for Deus a fazer da base dos mandamentos o pecado, a quem nos vamos confessar, ao Diabo?...

Da mesma forma, QUIÇÁ NO CASAL VENTOSO SE APRENDA MAIS SOBRE BOAS PRATICAS E BONS PRINCÍPIOS...




segunda-feira, 2 de julho de 2012

"Não há défice democrático na Madeira"

PROCIDADE
Não há défice democrático na Madeira. Assim como não havia no Chile de Pinochet Ugarte a partir de Setembro de 1973 ou na Argentina da ditadura militar de 1976. Só há défice democrático onde, pior ou melhor, há democracia.

Depois destas imagens em que jovens polícias musculados amarram e neutralizam um deputado eleito, na Madeira há um regime de força, um cacicado, aparentemente, aceite ou tolerado. Mas não há democracia. E, estranhamente, ninguém parece muito incomodado com isso, seja lá, seja cá.

Dizia D. Jorge Torgal Ferreira há meses, a propósito da calamitosa situação de miséria económica, do fosso gritante entre ricos e pobres e da indiferença e falta de respeito de políticos e poderosos  pelo Povo, tanto no âmbito politico como económico e social, "já cheira a queda de regime".

O que acabamos de ver é um regime regressado. Imagens destas foram possíveis até Abril de 74, mas com uma substancial diferença: meros (e excessivamente jovens) agentes não agiam sozinhos, esperavam ordens de uma patente elevada. Nestes, manda aparentemente outro deputado, eleito no mesmo sufrágio, mas que parece ter mais poder ao ordenar  "retirem  este senhor da sala, ele não tem o direito...", sendo caso para perguntar porque escolheram os jovens mancebos obedecer a um e não a outro deputado?...

...a menos que aquela não seja a Polícia de Segurança Pública que jurou obediência à Democracia e ao Povo Português, mas apenas uma guarda-pessoal do círculo de poder de AJJ...



terça-feira, 15 de maio de 2012

Portugal, um país de ricos

parábola env. p/Carlos Ramos:

                                    "quem distingue ou separa as 'éticas' numa 'ética para a vida', uma ´'ética para os negócios', uma                                         'ética para a profissão', acaba, irremediavelmente, por nem ter nem praticar ética nenhuma". Zef,VR
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Alegação: "Os portugueses, não são pobres, são é muito estúpidos" 


- "Um português recebeu de um seu amigo nova-iorquino que conhece bem Portugal a seguinte resposta, quando lhe disse: Sabes, nós os portugueses, somos pobres, somos um país pobre:   "Como podes tu dizer que sois pobres, quando sois capazes de pagar por um litro de gasolina, mais do triplo do que pago eu?...

- Quando vos dais ao luxo de pagar tarifas de electricidade e de telemóvel 80 % mais caras do que nos custam a nós nos EUA?...

- Como podes tu dizer que sois pobres quando pagais comissões bancárias por serviços e por cartas de crédito ao triplo que nós pagamos nos EUA?...
 - Ou quando comprais um carro que a mim me custa 12.000 US Dólares (8.320 EUROS) e vós pagais mais de 20.000 EUROS, pelo mesmo carro?...
- isto é, podeis dar mais 11.640 EUROS de presente ao vosso governo de que nós ao nosso?...


Um Banco privado vai à falência e vocês, que não têm nada com isso pagam; outro, uma espécie de casino, o vosso Banco Privado faliu, e vocês protegem-no com o dinheiro que enviam para o Estado.


Vocês pagam ao Governador do vosso Banco de Portugal um vencimento anual muito superior ao que nós pagámos ao Governador do Banco Federal dos EUA...

Um país que é capaz de cobrar o Imposto sobre Lucros por adiantado e sobre rendimentos pessoais mediante retenções, tem necessariamente que nadar em abundância, além de estar seguro de que os negócios da Nação e de todos os seus habitantes terão sempre lucros, apesar da inadimplência, do mau comportamento das seguradoras, de assaltos e outras ocorrências aleatórias, além do saque fiscal e da corrupção dos seus governantes e dos seus autarcas. Um país capaz de pagar o que pagais aos funcionários do estado e aos administradores das empresas públicas é um país de recursos ilimitados.

Nós, sim, somos pobres. Em New York, por exemplo, o Governo Estatal, tendo em conta a precária situação financeira dos seus habitantes, cobra somente 2 % de IVA, mais 4% do imposto Federal, isto é 6%. Nada comparado com os 23% dos ricos que vivem em Portugal. E$ vós, contentes com estes 23%, pagais ainda impostos municipais!...


Vocês podem pagar impostos do lixo, sobre o consumo da água, do gás e da electricidade. Aí pagam segurança privada nos Bancos, urbanizações, municipais, enquanto nós como somos pobres nos conformamos com a segurança pública.


Os pobres somos nós, os que vivemos nos USA e que não pagamos impostos sobre o ordenados se ganhamos menos de 3.000 dólares ao mês por pessoa, isto é mais ou menos os vossos 2.080 euros.

Vocês podem pagar impostos do lixo, sobre o consumo da água, do gás e da electricidade. Pagais até  segurança privada nos Bancos, urbanizações, municípios, etc., enquanto nós, como somos pobres que somos, nos conformamos com a segurança pública.

Vós enviais os filhos para colégios privados, financiados pelo estado (nós) enquanto nós nos EUA as escolas públicas emprestam os livros aos nossos filhos prevendo que não os podemos comprar...

Afinal, vós, portugueses, não sois pobres, gastais é muito mal o vosso dinheiro. Não sois pobres, sois é muito estúpidos!"

"E como anexo, mandou o seguinte relatório:
   
Um  dos Motivos por que o Governo se tornou fiador de 20 mil  milhões de euros de transacções intra bancárias é que os governantes de hoje vão ser os gestores amanhã, assim como os de ontem antes foram governantes:

1º - Fernando Nogueira:
Antes - Ministro da  Presidência, Justiça e Defesa
Depois - Presidente do  BCP Angola

2º - José de Oliveira e Costa:
Antes  - Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais
Deois  - Presidente do Banco Português de Negócios  (BPN)

3º - Rui  Machete:
Antes - Ministro dos Assuntos  Sociais
Depois - Presidente do Conselho Superior do  BPN;  Presidente do Conselho Executivo da  FLAD

4º - Armando Vara: (AQUELE A QUEM O SUCATEIRO DAVA CAIXAS DE ROBALOS)
Antes - Ministro adjunto do   Primeiro Ministro
Depois - Vice-Presidente do  BCP, após passar pela CGD

5º - Paulo Teixeira Pinto:  (o tal que antes de trabalhar já estava reformado)
Antes - Secretário  de Estado da Presidência do Conselho de  Ministros
Depois - Presidente do BCP (Ex. - Depois de  3 anos de 'trabalho'; saiu com 10 milhões de  indemnização !!! e mais 35.000EUR x 15 meses por ano até  morrer

6º - António Vitorino:
Antes -Ministro  da Presidência e da Defesa
Depois -Vice-Presidente da  PT Internacional; Presidente da Assembleia Geral do  Santander Totta - (e ainda umas 'patacas' como  comentador RTP)

7º - Celeste Cardona: (a tal que só aceitava o lugar na Biblioteca do Porto se tivesse carro e motorista às ordens - mas o vencimento era muito curto)
Antes -  Ministra da Justiça
Depois - Vogal do CA da

8º - José Silveira Godinho:
Antes - Secretário  de Estado das Finanças
Depois - Administrador do  BES

9º - João de Deus Pinheiro: Antes - Ministro da  Educação e Negócios Estrangeiros
Depois - Vogal do CA  do Banco Privado Português (O TAL QUE DEU O BERRO).

10º - Elias da  Costa:
Antes - Secretário de Estado da Construção e  Habitação -
Depois - Vogal do CA do  BES

11º - Ferreira do Amaral:
Antes - Ministro das  Obras Públicas (que entregou todas as pontes a jusante  de Vila Franca de Xira à Lusoponte)

Esta lista é uma vaga amostra; podes escolher livremente os apelidos e encontrar as dezenas de compatriotas ricos que aqui faltam e a quem remuneras principescamente, quer através do que pagas aos bancos, quer através dos soberbos impostos que pagas, ao teu estado. Olha mais exemplos:

Apelido Amaral: o Mira que espuma pela boca e que te comprou por 40 milhões o BPN que te custou 10.000 milhões;
Apelido Faria: o de Oliveira da CGD e depois do BCP,
etc., etc., etc.
... Desculpa, oh tuga, tu não és pobre, tu és é ou burro ou paspalho!!!"

sábado, 5 de maio de 2012

Mas que classe da mé(r)dia!

O Ardina 
Como diria o Sr Costa do café dias depois, "a promoção do pingo doce não foi a pensar nos mais pobres, quem ganha o salário mínimo já o deve ainda o mês não começou e no fim do mês, mal recebe, fica de novo de mãos vazias e nem 50 euros tem para fazer as tais compras no valor mínimo de 100 euros!". É absolutamente verdade. Este deplorável golpe de arrogância + humilhação, de sobranceria + submissão foi proposto/dirigido apenas àquela que é historicamente a mais PROSTITUTA E COLABORACIONISTA das classes sociais, a "classe média", e esta, mais uma vez, colaborou. Não recuando muito mais na história, é a mesma classe média sensorialmente dominada pelo esófago que levou ao/tolerou o Governo de Vichy, é a do Chile de 73, é a da Espanha falangista e do golpe de Tejero Molina. Por cá e neste Portugalete, é a que se fez senhora nas colónias africanas, é a que confirmou Marcelo Caetano nas eleições de 69 e de novo nas de Outº de 73 mas que seis meses depois (a 26 de Abril de 74) sai à rua de cravo na mão para festejar a liberdade mas apostou no sindicalismo amarelo-moderado, é ainda a mesma que há quase 30 anos alterna entre o ultra-liberalismo cavaquista e o neo-liberalismo dos socialistas, elege o Cavaco e o cavaquismo, depõe o Cavaco, repõe Cavaco e cavaquismo nas mesmas ou noutras embalagens, conforme cada um destes dois grupos de merceeiros lhe vá mantendo a medíocre expectativa duma subidita do poder de compra para mais um ou dois sacos de mercearia em promoção (mesmo que no limiar dos prazos de validade), para mais uns farrapitos nos saldos pós-natalícios, ou aproveitar idênticas promoção para fazer uma viagem aos trópicos nas férias da Páscoa. Somos todos povo mas a "nossa" classe média nunca quis ser o Povo, nem antes, nem depois do 25 de Abril. A palavra Povo tem para a classe média um estigma milenar de pobreza que lhe não agrada, não satisfaz a sua ferida narcísica nem serve à sua narrativa pessoal e social e sem um quadro heráldico pós-moderno que atribua (de)graus e distinções, faz-se (ou aspira a ser) doutora e/ou a ter filhos doutores. Doutores professores, doutores escribas, doutores funcionários, doutores administrativos, doutores funcionários-bancários, mas doutores. Povo é que não!
Não se surpreenda por isso quem viu o que cá se passou nas tais promoções e como mais um (e apenas mais um qualquer) Ebenezer Scrooge  contou com a colaboração desta "classe" sua colaboração para tentar aterrar sob detritos/esterco biológicos e não biológicos (cascas de cebola, folhas amarelecidas de couve, penca e alface, embalagens plásticas de óleo vegetal ou de detergente, etc.) o dia 1º de Maio. A classe média não faz registos nem valorações a este nível. Faria, quando muito, se a mesma promoção coincidisse com o aniversário de casamento, ou com a festinha de aniversário dos filhos em idade escolar, ou o aniversário da formatura dos filhinhos doutores e ainda assim não passaria disso mesmo, um mero aborrecimento formal, porque noutro qualquer dia, mesmo à semana, atestaria um qualquer artigo-quarto que lhe justificasse a falta ao trabalho. Perdão, ao emprego.

Há umas boas três décadas atrás Claude Lelouch realizou o filme Les uns et les outres e mostrava da II Guerra Mundial as ambiências, aspirações e sobrevivências à margem dos estritos cenários de Guerra, bem como o pós-guerra mais imediato. Mais musical que historiográfico ou sociológico,  o filme não deixa de ter como tema central a II Grande-guerra e das múltiplas estórias paralelas que narra, destacaria para dela me servir como alegoria sobre a classe média a estória de uma francesa que manteve o (ou até subiu no) seu estatuto...dando-se muito bem com os ocupadores nazis. Na minha alegoria (e dele, Lelouch, estória), logo após a libertação, o Povo premiou com humilhação e ostracisação (até com alguma barbaridade, confesso) o espúrio e ultrajante colaboracionismo da dita compatriota francesa. Pena que na História o não tenha feito ainda e resoluta, cabal e definitivamente.

O Ardina






O diagnóstico psiquiátrico como prática moral


PROCIDADE
I
"Cuando entras acá eres loca e cuanto más te esfuerzas en demostrar que eres normal, mas te van a creer loca hasta que te neutralizan; lo que tienes que hacer es tornarte invisible…”
súmula de consensos...

Juízo moral, preconceito, que escrutínio?
II
"Os meros sintomas ou o pré-diagnóstico de alterações de comportamentais como validação não só do juízo médico, mas também judicial; a institucionalização  da "pessoa doente" ao nível médico e o controlo moral e social normativo exercido pelos tribunais. E nestes meandros, 
    - quem escrutina estes processos junto de hospitais, tribunais, médicos e magistrados?
    - que escrutínio Democrático?
ZVR - Abr/2012

III
Há uma diferença substancial entre as doenças médicas e as doenças psiquiátricas quando o diagnóstico destas últimas tem uma função de controlo social normativo, tomando como factos médicos determinadas alterações do comportamento.
O ponto de partida da força do diagnóstico psiquiátrico é a assumpção forte de que há uma equivalência entre as doenças psiquiátricas e as doenças médicas, com a implicação de que as doenças psiquiátricas são causadas por uma disfunção corporal e podem ser tratadas como tais doenças. Todavia, quando perspectivamos alterações do comportamento e olhamos para a pessoa como ser moral, a definição daquilo que é ou não é doença depende obviamente dos valores culturais e normas sociais, em contraste com aquilo que se passa no diagnóstico médico.
De resto, a assumpção de doença mental é realizada pelos indivíduos, famílias ou outros profissionais de saúde e só depois é validada pelo rótulo formal colocado pelo psiquiatra que assim responde a um requerimento social e moral. Assim, o diagnóstico psiquiátrico serve uma função pragmática de reforçar a aplicação apropriada de meios ou sanções para lidar com pessoas que se desviam de determinadas normas de conduta.
Convém realçar que o diagnóstico médico só funciona porque se apresenta como uma actividade médica, sendo por isso inquestionável.  
Lembre-se a propósito o dramático caso da filha do fundador do Diário de Notícias, Maria Adelaide Coelho que se apaixonou pelo motorista, um mancebo bem parecido e que foi internada compulsivamente e cujo relatório assinaram os Drs. Júlio de Matos, Sobral Cid, Egas Moniz e Bettencourt Rodrigues, as maiores autoridades médicas ao tempo: "Trata-se dum dramático episódio de loucura lúcida que é o tormento das famílias e uma fonte viva de escandalosos pleitos judiciais" (Cf.in "Doidos e Amantes" de Agustina).
           O internamento compulsivo é apresentado, na actual Lei de Saúde Mental, como servindo os melhores interesses do doente, mas é óbvio que a Lei procura também facilitar o modus operandi do controlo de pessoas que têm um comportamento violento ou se afastam de algum modo das normas sociais. Deste modo, o diagnóstico psiquiátrico torna-se também um instrumento político para reforçar a aplicação de medidas de "cuidado" e de controlo sobre as pessoas com alterações do comportamento.
Em sinopse, o estado delega em técnicos a resposta a situações classificadas a priori como sendo de doença mental. Os técnicos raras vezes têm a noção da natureza política do seu acto "médico". Por outra parte, a sua tarefa, por ser considerada tecnicamente complexa, fica isenta do escrutínio público, conquanto, dada a sua natureza de prática moral, requerer participação democrática e controlo.

Z. Venade Ribeiro
Abr/2012