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domingo, 27 de novembro de 2016

O Portugal dos "doutores"

Rubrica: ALMANAQUE DA MEDIOCRIDADE

Ou como se mantêm delírios de classe e de grandeza num país sub-desenvolvido, historicamente pobre, que nem episodicamente que fosse largou a cauda da Europa; num país onde não há apenas um rei que vai nu, antes são múltiplos os que se julgam réis e não sabem que vão nus; num país onde a quantidade de doutores e engenheiros é directamente proporcional ao seu histórico sub-desenvolvimento:

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[Jornal Público, 19 de Abril de 2007 - Kathleen Gomes; Apesar de não directamente relacionado com o tema 
de «A Filosofia no Ensino Secundário», não resisti a publicar este interessante texto do Jornal "Público".]
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É tão português quanto a sardinha assada, a roupa à janela ou "passar pelas brasas". Para um inglês, muito provavelmente, a expressão "I"m going to go through the heats" faz tanto sentido como ter "Dr." ("doctor") impresso no cartão de crédito antes do nome. Ou seja, sentido nenhum.
(...)
O historiador Rui Tavares inventou um nome para isso, numa recente crónica no PÚBLICO: "titulocracia". A recente polémica em torno da licenciatura do engenheiro-não-engenheiro José Sócrates veio lembrar-nos a importância do que chamamos às pessoas quando não as chamamos (apenas) pelo nome. Veio lembrar-nos que somos um país de "doutores" e "engenheiros", nem todos legítimos (mas, porventura, não exactamente ilegítimos, já que podemos escolher a forma como queremos ser tratados num impresso bancário sem que ninguém nos peça habilitações), um país onde o aparato da forma de tratamento denuncia o nosso sentido das aparências. 
(...)

"É porque não somos um país de doutores", responde o sociólogo Manuel Villaverde Cabral. "Somos um país onde os diplomas universitários e os estudos em geral são um bem muito escasso. Que foi escassíssimo durante muito tempo. Temos os níveis de escolaridade mais baixos da Europa - de longe."
Não é o único a pensar assim. Maria Manuel Mota, 35 anos, investigadora do Instituto de Medicina Molecular com doutoramento feito em Londres e pós-doutoramento em Nova Iorque - que lhe deram, também, um currículo em informalidade anglo-saxónica -, nota que "fomos um país sem educação durante muitos anos, estamos a dar os primeiros passos". É como que um deslumbramento nosso, isto do "senhor doutor"? "É isso. É um bocado novo-riquismo." 
O "doutor" democratizou-se

João de Pina Cabral, antropólogo especializado em identidade social e pessoal, define os títulos académicos como "símbolos de um novo estatuto burguês", a par dos "casamentos pomposos, os BMWs pretos, as gravatas brilhantes, os cabelos louros, as férias no Brasil..." A sua linhagem histórica remonta aos "processos de constituição e de chegada ao poder da burguesia nos meados do século XIX". Acontece que, com a massificação do ensino universitário privado em Portugal, nas décadas 80 e 90 - "em que milhares e milhares de pessoas, cujos pais eram oriundos de meios mais ou menos populares, social e culturalmente oprimidos, tiveram acesso a formas de vida que eles identificam como burguesas, com o correspondente estatuto social" - o "doutor" democratizou-se, banalizou-se. Dito de outro modo: "ser "doutor" já não chega", hoje, para distinguir alguém.
(...)
De Tony ao Prof. Cavaco
A importância do título é visível, desde logo, na classe política. Em França, o Presidente da República é tratado por "monsieur le président" ou "monsieur Chirac", o equivalente a "senhor" em português. Em Inglaterra idem aspas: "Ninguém se lembraria de chamar ao Blair "doctor"", nota Manuel Villaverde Cabral. (Mais: o primeiro-ministro inglês é Tony, do mais familiar que pode haver). Em Portugal, por contraste, diz-se "Professor Marcelo" ou "Professor Cavaco", diz Villaverde Cabral, "como se isso acrescentasse uma mais-valia". Segundo o sociólogo, isso denota "a pouca valorização", entre nós, do político profissional e da classe política em geral. Ou seja, o título académico é uma forma de compensar o "menor respeito" que o "imaginário colectivo" tem pela classe política, notabiliza-a. Daí a "prevalência de uma classe política portuguesa com uma qualificação enorme, exagerada, quase anormal por comparação com outros países", conclui Villaverde Cabral.(...)"


"O PAÍS DOS DOUTORES E ENGENHEIROS
A primeira surpresa para um estrangeiro que aterre em Portugal pode ser o número anormal de médicos que existe no país. Um ouvido atento em qualquer café de Lisboa, à hora das refeições, poderá contar pelo menos uma dúzia de: “Como está, doutor?”, “O que é que lhe apetece comer, senhor doutor?” (…)
Em Portugal, basta ter passado pelas salas de aula de uma universidade para obter o título de doutor. E, muitas vezes, nem é preciso tanto. Uma pessoa que ocupe um cargo de alta importância, ou que tenha, simplesmente, um ar de executivo, pode ser tratada por doutor pelo empregado do restaurante e, claro, pelos seus subordinados.
Quando não é doutor, pode ser engenheiro ou arquitecto. E se o empregado se engana, é possível que o próprio doutor, engenheiro ou arquitecto se encarregue de o corrigir. (…) A muitos portugueses soa ridículo, especialmente aos mais jovens. “Somos o país dos doutores e engenheiros”, dizem os críticos, com ironia. A ironia ainda é maior quando os números dizem que apenas dez por cento da população activa portuguesa possui formação universitária, a taxa mais baixa dos países da OCDE, cuja média é de 23 por cento. Ou, pensando melhor, talvez não seja tão irónico: aqui pode estar a chave do mistério de um tratamento tão diferencial a quem se limitou a frequentar a universidade.
No século XIX e no início do XX, os (poucos) filhos da burguesia e dos grandes proprietários rurais que conseguiam fazer estudos superiores regressavam à terra e eram conhecidos como “doutores”, senhores distintos e merecedores de grande reverência. A denominação manteve-se, apesar da democratização, e continua a ter o mesmo significado: é uma forma de admiração, diferença e superioridade que, em muitos casos, os próprios beneficiários se empenham em manter. Mesmo quando não querem aceitar este tratamento, os portugueses vêem-se obrigados a utilizá-lo, por estar tão enraizado. (…) - in, Courrier internacional, nº 102, Março 2007"
...................................
14/09/2009 Por Fernando Moreira de Sá 

Hoje dei de caras com um cartaz da CDU na minha freguesia cujo nome da candidata surgia da seguinte forma: “Dr.ª. fulana de tal”. Olhei segunda e terceira vez e imediatamente pensei: “está dado o mote para a minha próxima posta no Aventar”.
O meu Pai, farmacêutico de formação e profissão, tinha por hábito advertir algumas pessoas que o interpelavam por “Senhor Doutor” do facto de não ser esse o seu nome de baptismo. Logo de seguida, ironicamente, explicava o processo de baptismo, etc e tal. Foi com ele que aprendi a não gostar dessa “cagança” tão portuguesa. Mais tarde, quando a idade começou a avançar, comecei a ser tratado em determinados locais pelo mesmo “Senhor Doutor” e lá começava eu a explicar que não era, que não tinha ainda acabado o curso e mesmo que o tivesse, etc e tal. Ao ponto de ter deixado de ser cliente de um determinado restaurante da Maia por causa disso – o fulano, dono do dito, começou a tratar-me por doutor, após lhe dizer que não o era, passei a ser engenheiro e a seguir, arquitecto! Após terminar a licenciatura, começou novamente o massacre. Numa primeira fase expliquei que “Doutor” era o meu médico, depois anunciei que não passava receitas e, por fim, desisti tendo como resultado começar a ficar farto.
Neste país de “doutores” e muito respeitinho, a maralha péla-se por ser tratada pelo “Dr.” e nem vos digo a quantidade de vezes que recebo mails, sobretudo de trabalho, cuja assinatura surge como “fulano de tal, Dr.”, assim mesmo, sem tirar nem pôr, pondo a nu os complexos de inferioridade que habitam no mais estranho dos seres(...)"

O Cínico


quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Um "luxo"... franciscano.

Um "luxo"... franciscano

PROCIDADE

ou quando o paganismo "cristão" é mais piedoso e misericordioso de que o Cristianismo religioso

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"Passos da noite / Ao romper do dia / Quantos se ouviram / Marchando a par
Batem à porta / Da hospedaria / Se for o vento / Manda-o entrar
(...)
Venho de longe / Sem luz nem guia / Sou estrangeiro / Nao sou ninguém 
Na flor queimada / Na cinza fria / Nunca se passa / Uma noite bem
(...)
Há muito tempo / Que te não via / (Um anjo negro / Me vem tentar)
Batem a porta / Da hospedaria / É aqui mesmo / Que eu vou ficar"
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"O Cavaleiro e o Anjo" (1968).José Afonso
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                                    "quem distingue ou separa as 'éticas' numa 'ética para a vida', uma ´'ética para os negócios', uma                                         'ética para a profissão', acaba, irremediavelmente, por nem ter nem praticar ética nenhuma". Zef,VR

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Em assunto, a (futura-próxima) visita a Fátima do Papa Francisco em 12-13 de Maio de 2017.


Constatação imediata: 

      - O "inferno" e a "condenação para a vida eterna" já não são o que eram e ninguém tem medo de pecar por usura ou especulação; 


O paradoxo (ou a 96ª tese de Martinho Lutero):
      - Estar perto (e ver de longe) o mais popular, humilde e franciscano dos papas da história moderna da Igreja Católica será afinal uma exuberância, um luxo sem precedentes e apenas ao alcance de muito poucos.

"... De 56 para os 550 euros:
No Hotel Cristal, na Marinha Grande ontem ainda estavam disponíveis quartos duplos a 550 euros.Num fim de semana normal, consegue-se o mesmo alojamento por 56 euros. Nesta Nesta inflação criada pela visita papal, os aumentos brutais fazem-se sentir até nos dias anteriores à grande peregrinação. 






































Uma noite de sexta-feira, em novembro, custa qualquer coisa como 32 euros, no Hotel Aleluia, em Fátima. Mas, na noite de 10 para 11 de maio do próximo ano, o mesmo tipo de quarto está no mercado por 500 euros. E no Hotel Avenida de Fátima, um duplo que custa 39 euros ficará por 300 euos para a noite de 11 de Maio de 2017. 
No que se refere a moradias registadas na plataforma Airbnb [alojamento local/casas de particulares], há 3 semanas chegou a estar disponível em Fátima para 12 de maio uma casa para 10 pessoas por 5300 euros por noite, ou um quarto familiar para 4 pessoas, por 1500 euros. Ontem, no mesmo site, já só havia quatro quartos, com preços entre os 155 e os 550 euros...".
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procidade






terça-feira, 8 de novembro de 2016

O 'PERES' e as letras miudinhas da 'apólice'

O 'PERES' e as letras miudinhas da 'apólice'

PROCIDADE

'PERES': PROGRAMA ESPECIAL DE REDUÇÃO DAS DÍVIDAS AO ESTADO

O que o estado apenas diz 'no fim'; as letras miudinhas do 'contrato de adesão'. Ou ainda e mais uma vez A majestosa igualdade das leis que tanto proíbe o rico como o pobre de mendigar nas ruas, de roubar pão ou dormir debaixo das pontes (Anatole France).

Que "O Estado não é pessoa de bem", de tão recorrente, já é mais um aforismo de que uma queixa. Mas o que vimos observando como comportamentos do "Estado" desde há um par de décadas coloca-o ao nível do mais desenvergonhado e desprezível salafrário.

Antes de Mais, por "Estado" entenda-se a Administração do Estado e da República, operada por humanos, por pessoas, uns/as eleitos/as, outros/as nomeados/as e outros/as lá colocados em contrato de provimento vitalício (os/as chamados/as funcionários/as").

No que toca ao que mais tarde viria a dar à luz à luz como 'PERES', o que o XX Governo anunciou, alardeou, propagandeou, foi uma medida de "perdão" Fiscal que permitiria regularizar a situação fiscal de devedores com perdão/redução de juros e custas e podendo fazer planos de prestações que poderiam chegar a 150 prestações mensais. Referindo expressamente que o dito plano se destina "às empresas e às famílias", o Governo deixava antever nesta distinção alguma diferenciação de tratamento susceptível de criar condições de igualdade material e efectiva, tratando de forma igual o que é igual e de forma diferente o que é diferente
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NOTICIAS

Governo anuncia novo perdão fiscal

dinheiro




"Empresas e famílias poderão, até ao final do ano, pagar as dívidas que tenham ao Fisco e à Segurança Social com perdão de juros e custas. Em alternativa poderão solicitar um pagamento a prestações também com redução de juros, anunciou o Executivo."



Ocupando-me das famílias, devo lembrar que há famílias com rendimentos globais anuais superiores a 50 mil euros e, no outra extremo, há famílias com rendimentos anuais inferiores a 5 mil euros. Basta ter em conta uma família onde apenas um dos membros do agregado trabalha e aufere o salário mínimo, ou famílias onde ambos os cônjuges estão desempregados e não auferem sequer subsídio de desemprego ou subsídio social de desemprego, para perceber como será difícil para muitas famílias atingir sequer os 5 mil euros anuais. E mesmo que as famílias tivessem dívidas fiscais na proporção dos seus rendimentos, o esforço de pagamento, seja a 'pronto pagamento', seja num plano de prestações, não é igual e muito menos proporcional. Uma família que tenha disponível um rendimento mensal de 500 euros, depois de atender ao imperativo categórico da pirâmide de necessidades de Maslow, não fica com dinheiro disponível sequer para "mandar cantar um cego", quanto mais para regularizar dívidas fiscais, pelo que de um governo socialista o que se esperaria seria um pacote de medidas com as tais diferenciações geradoras de igualdade material e não apenas e meramente formal. Ou, como se disse, tratar de forma igual o que é igual e de forma diferente o que é diferente, para dar a todos verdadeiras condições de igualdade.

No p.p. dia 4 de Novembro e depois do alarde e propaganda, promulgou-se o 'PERES' e um par de dias depois, Segurança Social e Finanças (AT) colocavam cartazes nos seus átrios que davam a conhecer as condições que através dele - 'PERES' - foram criadas para que as empresas e as famílias regularizarem as suas dívidas fiscais, e agora sim, aparece a verdade perversa da medida governativa ou as tais letras miudinhas):


A - Pagamento à cabeça de 8 %;

B - Plano de pagamento até 150 prestações, mas com o valor mínimo de 102,00 por prestação para as pessoas singulares; (logo, para as famílias),

CTabela de redução de juros e custas
 a) Até 36 prestações, redução de 80%;
 b) de 37 até 72 prestações, redução de 50%;
 c)  De 73 até 150 prestações, a redução é de 10%.

A - Pagamento à cabeça de 8 %...
       ... enfim, não seria por aqui que seria desferido um grave golpe na igualdade: 8% de uma dívida              de 5 mil euros seriam 400 euros, 8% de uma dívida de 500 euros  seriam 40 euros;

B - Plano de pagamento até 150 prestaçõesmas com o valor mínimo de 102,00 por prestação para as pessoas singulares (logo, para as famílias),

       ou seja, são mesmos 102,00 euros para as famílias com um rendimento mensal de 500 euros, ou         de 2 mil, ou de 5 ou 10 mil; sem se perguntarem como pode uma família - ou a tal pessoa singular - que dispõe de 500 euros mensais abrir mão, durante 5 ou seis meses, de 25% desse magríssimo rendimento, isto é, o valor de que mensalmente precisa para água, luz e gás, ou mais de metade do pouco que terá disponível para alimentação - e quem sabe se com filhos menores e em idade escolar - e ainda falta pagar o custo da habitação, pelo menos; e com a igualdade já ferida de morte, mais um golpe com  o quadro ou tabela das reduções de juros e custas, que decai na proporção inversa das mensalidades do plano:

C - Tabela de redução de juros e custas
 a) Até 36 prestações, redução de 80%;
 b) de 37 até 72 prestações, redução de 50%;
 c)  De 73 até 150 prestações, a redução é de 10%, 

Não há dúvida, a Lei trata todos por igual [3], seja qual for a sua capacidade de auferir rendimentos, seja qual for o seu extracto económico e social, seja qual for a sua capacidade de gerar/auferir rendimentos, esteja ou não desempregado, ou doente e sem rendimentos. 

Se por um lado esta é mais uma medida do já tradicional socialismo equalitário de António Costa (enfim, tal como na estória do escorpião, é da sua natureza), por outro lado esta medida é uma descarada e incontornável manifestação da desonestidade do "Estado" e mais particularmente, das Finanças e da Administração Fiscal". 


Senão, vejamos,

- entre metade e dois terços das dívidas fiscais são criadas pelos e nos serviços fiscais, na forma de coimas, juros e custas convertidas depois em processos (execuções) fiscais por funcionários que dispõem de um poder igualável ao de juízes de Direito,


- e houvera uma justiça fiscal (Tribunais Administrativos e Fiscais) minimamente célere e garantística, o que o fisco reclama como dívidas seria reduzido a pouco mais de um terço;


- A mesma administração fiscal que gera e gere as alegadas "dívidas", tem em seu poder e sem trabalho nenhum [1] as declarações anuais de rendimentos de todos os cidadãos e agregados (ou das famílias),


- assim como tem em seu poder a informação sobre o património - sobretudo imobiliário - das mesmas famílias,


- e cruza ainda quando, como e com quem quer, e como quer, as informações que bem entende;


Tem, em suma, a informação mais que suficiente para saber quem deve e quanto, porque deve e que condições tem para pagar. Não é o Registo Civil que tem esta informação; ou tampouco a Câmara Municipal; quem dispõe de toda esta informação - e obrigatoriamente escriturada nas Plataformas electrónicas da AT pelos próprios contribuintes [1]  - são as Finanças, é a administração fiscal, é a AT;



Então, a AT/administração fiscal tem todos os dados necessários para fazer com cada pessoa singular, com cada família, e para cada um/cada uma, um plano prestacional à sua medida, ou à medida dos seus rendimentos e ou riqueza, de forma a que a todos fosse permitido, sã, honesta, equalitária e equitativamente,  proceder à regularização da sua situação fiscal.

Assim, graças ao efeito retorcido de uma tão clara e democrática medida, quem vai poder regularizar a sua situação fiscal, serão apenas os quem ganhando o suficiente para não terem dívidas ao fisco, ainda assim não pagaram, porque deram prioridade às prestações do BMW, ou a umas quantas viagens aos trópicos, E continuarão devedores - e condicionados nos benefícios sociais pela situação não regularizada - aqueles que não pagaram porque não tiveram - e continuam a não ter - as condições financeiras para pagar o que lhes é exigido e nos prazos e montantes que lhe são exigidos [2].


Y que vivan el Señior Costa, El Señior Peres y la democrácia nominal, pués...


[1] - Nos últimos 15 anos a AT (o "Estado") transferiu para os contribuintes a obrigação de escriturar toda a informação fiscal que antes era operada - como devia ser! - pelos funcionários administrativos. Desde o preenchimento na "plataforma" de todas as obrigações declarativas até ao carregamento da informação a cruzar nas bases de dados (a comunicação das facturas, guias de transporte, etc.), passando até por coisas como o registo pelo próprio contribuinte de contratos de aluguer, todo este trabalho (entre 70 e 90% do trabalho de escrituração), outrora escriturado pelos funcionários, é hoje escriturado pelos cidadãos, que assim foram constituídos empregados da AT, em regime de voluntariado obrigatório (não remunerado, obviamente) e que trabalham para a AT à noite, em casa ao serão ou ao fim-de-semana e quem não sabe ou não pode, que pague a alguém para escriturar por si.
Contudo, as repartições )agora chamadas "Serviços" aumentam de dimensão e o número de funcionários não diminuiu, pelo contrário. O que fazem ou de que se ocupam então agora os funcionários "residentes" da AT?...

             - Geram e depois gerem dívidas fiscais, execuções e penhoras; as repartições ou "serviços" foram "reconvertidas" para esquadras ou divisões da coercividade fiscal...

[2] - Aliás, para estes contribuintes, ou estas famílias,  o 'PERES' veio até criar condições mais exigentes e mais dificuldades, ao fixar em 102 euros a prestação mínima, limite que não existia antes de 'PERES' e que permitia planos de 10 ou 12 prestações que poderiam ser de valor inferior aos famigerados 102 euros, critério valorimétrico que o 'PERES' foi copiar ao Código das Custas Processuais (102,00 €=1 UC), mal-disfarçando a vocação judicialista das "finanças";

[3] - Em bom rigor nem é verdade, a Lei (o OE2017/PERES) faz algumas diferenciações ou discriminações positivas. Mas imagine-se para que entidades: para as empresas!

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Antes a vida privilegiada dos Operadores de "Call Center", será?...

Antes a vida privilegiada dos Operadores de "Call Center", será?..
PROCIDADE

IRRA!...que o que é demais, já é mais que erro:

Na minha opinião - e reclamando o direito a tê-la - aos professores falta capacidade de autocrítica: Não se chegou a este estadio "sem" os professores ou "contra" os professores, Os professores "também" são sociedade e comunidade e nessa medida têm muitas responsabilidades nesta (in)evolução da educação como facto social. E não me refiro a aspectos mínimos ou comezinhos como, por exemplo, professores da Escola Pública que colocam os seus filhos em escolas / colégios privados nas grandes cidades (espírito de "casta") ou ainda o sem número de professores que a partir dos cinquenta e picos anos passa a estar de atestado "permanente" (ainda que estes aspectos "comezinhos" sejam igualmente importantes, são muitos/as que assim procedem, a comunidade conhece-os/as e isso (também) os/as desacredita como grupo sócio-profissional e enquanto classe de funcionários públicos.
Refiro-me à demissão dos professores da participação como um dos principais agentes na mudança/reforma das políticas educativas, na formação contínua dos professores, na ligação à comunidade, etc. e "isto" continuará a involuir, enquanto se mantém este diálogo de surdos (logo, esta série de monólogos") como o é esta notícia de hoje: 
- "tomamos conta dos filhos deles por 18 anos e não nos valorizam". Que falácia! 
Depois do jardim de infância e da Pré-Escolar, passando ainda um pouco pela Primária/Ensino Básico, os professores "tomam" realmente conta dos filhos de alguém?... Ah, sim, claro, os professores "tomam" conta" todos em geral, mas nenhum em particular: entrar numa sala de aulas, dar uma aula "magister dixit" e sair ao cabo de 50 minutos para o local "vedado" aos alunos que são as "salas dos professores" não é "tomar conta" dos filhos de ninguém, não é sequer, formar com os alunos uma "comunidade letiva", quanto mais "tomar conta" deles . Em 50 anos, passamos de uma dimensão comunitária, "local", em que todos se conheciam dentro e fora da escola e os pais tinham tempo diário para os filhos, para esta dimensão agigantada e despersonalizada e onde abundam as "bolsas de vazio" de toda a ordem. E o que mudou nos métodos letivos?...
Na Escola Pública, nada: o professor mercenário vai dar a sua hora de 50 minutos por conta das (até) 22 que tem que "dar" por semana. Entretanto, "de quem são" os alunos que a cada ciclo de 60 minutos são passados "de mão em mão", quem "toma conta" deles, de facto?...
Uma Educadora de Infância ou uma Técnica de Educação da Pré-Escolar podem dizer "tomamos conta deles e não nos valorizam" porque é rigorosamente verdade. 
Um/a professor/a do Ensino Básico ainda pode dizer que "toma conta", embora seja - infelizmente - cada vez menos verdade porque de facto já trabalha por "blocos letivos" de duas horas e no "recreio", quem "toma conta" é a Auxiliar (a "empregada").
Mas nos 2º, 3º ciclos e secundário, são os alunos que tomam conta uns dos outros, para o bem e para o mal e para o melhor e para o prior (aliás, estas 'bolsas de vazio' são também o espaço do buliyng). 
E é aqui que os/as escolas/colégios privados fazem a diferença (e eu sou e gostaria de continuar a ser defensor da Escola Pública): apesar de se manter o modelo letivo INADEQUADO "monodisciplinar por fraçoes" de 50 minutos, ALGUÉM COM ROSTO "está com" os alunos e humaniza e pessoaliza a escola, identifica-os com, cria para os alunos um "grupo de pertença".
Em 1971 foi publicado em Portugal o livro de Evan Hunter "Sementes de Violência" que relatando factos sociais na educação de cidades em vias de massificação escolar, alertavam para os perigos desse fenómeno os/as educadores de países em desenvolvimento, como o nosso (a Escola de Massas, em bom rigor, está entre nós desde o 25 de Abril de 1974). E ao cabo de 40 anos em que - também cá - se assistiu à massificação escolar e à secularização dos fenómenos de que agora se queixam os professores, pergunto: Quantos/as professores/as e responsáveis pelas políticas educativas leram - por exemplo - este livro, ou "como um romance" de Pennac, ou outros que não estão nas "leituras curriculares"?...
A Surpresa para mim é que mesmo professores do quadro disciplinar das "Humanidades" (as antigas "letras") são parcos em leituras, ficam-se pelo "manual escolar".
Para poderem dizer que "tomam conta deles " (pelo menos) 15 anos, reivindicam um modelo de ensino diferente, mais grupal e por seminários, pelo menos até aos e 3ª Ciclos. "Vivam" na escola e com a turma, como acontece na Jardim e Infância, na pré-escolar e ainda no 1º Ciclo. Esse modelo do professor "monodisciplinar" por blocos. de professor "visitante" que ministra a aula na sala X, será aceitável a partir do 3º ciclo e na Universidade.
É incompreensível - e, porventura, intolerável - que década a década as coisas piorem e a única coisa que aumenta são as reclamações opostas de pais vs professores.
Concluindo, se os professores usassem o seu poder reivindicativo - que é incomensurável quando comparado com o de outras classes/grupos sócio-profissionais [1] - para MUDAR MAIS O/NO ensino, todos, incluindo os professores, teríamos muitas menos "razões de queixa"...

[1] - poder reivindicativo, privilégios de casta e de "grupo especial à parte":
- se um/a recém-licenciado/a conclui uma licenciatura da "via de ensino", passa a ser "um professor no desemprego";

- mas o recém-licenciado em fiscalidade, contabilidade ou gestão; engenharia ou biologia, é apenas um desempregado licenciado;
- são frequentes e recorrentes as notícias sobre o cansaço, a desilusão e não sei o que mais dos/as professores/as;
- há muitos grupos sócio-profissionais onde esses níveis de exaustão e desilusão são incomparavelmente maiores, trabalham num padrão de 50 horas semanais, têm um regime de férias que equivale ao regime dos feriados dos professores - ah! e as férias dos professores?... quem não queria o regime de férias dos professores da escola pública? - mas aguentam, porque não são "classe" e não têm poder reivindicativo; e porque não são "classe", ninguém fala deles;

- é elevadíssimo o número de profissionais da PSP e GNR  - cuja remuneração é de cerca de um terço das dos professores - que se suicidam nos quartéis e nas camaratas, por não aguentarem mais;

- e proporcionalmente, é maior o número de professores que recorre ás baixas plurianuais, mantendo o vencimento e apenas deixando de receber o subsídio de alimentação... por não aguentarem mais;

e são apenas dois dos muitos "mosaicos" possíveis sobre a igualdade e a "coesão social"..


ENTREVISTA




“Confiamos-lhes os nossos filhos durante 18 anos”, mas não os valorizamos

Três perguntas a Joaquim Azevedo, coordenador do inquérito As preocupações e as motivações dos professores.
Joaquim Azevedo gostava de saber "porque é que a sociedade portuguesa e os seus dirigentes políticos não valorizam os professores" RENATO CRUZ SANTOS


Escreve em As preocupações e as motivações dos professores, o seguinte: “É como se um pessimismo endémico tivesse tomado conta da educação escolar.” Pessimismo (e também insatisfação) que é maior entre os inquiridos no ensino público do que entre os do privado. Como explica isto?
As diferenças podem explicar-se por vários motivos: no sector privado há, tendencialmente, mais estabilidade das equipas docentes, uma vinculação diferente ao projecto da escola..."