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quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Antes a vida privilegiada dos Operadores de "Call Center", será?...

Antes a vida privilegiada dos Operadores de "Call Center", será?..
PROCIDADE

IRRA!...que o que é demais, já é mais que erro:

Na minha opinião - e reclamando o direito a tê-la - aos professores falta capacidade de autocrítica: Não se chegou a este estadio "sem" os professores ou "contra" os professores, Os professores "também" são sociedade e comunidade e nessa medida têm muitas responsabilidades nesta (in)evolução da educação como facto social. E não me refiro a aspectos mínimos ou comezinhos como, por exemplo, professores da Escola Pública que colocam os seus filhos em escolas / colégios privados nas grandes cidades (espírito de "casta") ou ainda o sem número de professores que a partir dos cinquenta e picos anos passa a estar de atestado "permanente" (ainda que estes aspectos "comezinhos" sejam igualmente importantes, são muitos/as que assim procedem, a comunidade conhece-os/as e isso (também) os/as desacredita como grupo sócio-profissional e enquanto classe de funcionários públicos.
Refiro-me à demissão dos professores da participação como um dos principais agentes na mudança/reforma das políticas educativas, na formação contínua dos professores, na ligação à comunidade, etc. e "isto" continuará a involuir, enquanto se mantém este diálogo de surdos (logo, esta série de monólogos") como o é esta notícia de hoje: 
- "tomamos conta dos filhos deles por 18 anos e não nos valorizam". Que falácia! 
Depois do jardim de infância e da Pré-Escolar, passando ainda um pouco pela Primária/Ensino Básico, os professores "tomam" realmente conta dos filhos de alguém?... Ah, sim, claro, os professores "tomam" conta" todos em geral, mas nenhum em particular: entrar numa sala de aulas, dar uma aula "magister dixit" e sair ao cabo de 50 minutos para o local "vedado" aos alunos que são as "salas dos professores" não é "tomar conta" dos filhos de ninguém, não é sequer, formar com os alunos uma "comunidade letiva", quanto mais "tomar conta" deles . Em 50 anos, passamos de uma dimensão comunitária, "local", em que todos se conheciam dentro e fora da escola e os pais tinham tempo diário para os filhos, para esta dimensão agigantada e despersonalizada e onde abundam as "bolsas de vazio" de toda a ordem. E o que mudou nos métodos letivos?...
Na Escola Pública, nada: o professor mercenário vai dar a sua hora de 50 minutos por conta das (até) 22 que tem que "dar" por semana. Entretanto, "de quem são" os alunos que a cada ciclo de 60 minutos são passados "de mão em mão", quem "toma conta" deles, de facto?...
Uma Educadora de Infância ou uma Técnica de Educação da Pré-Escolar podem dizer "tomamos conta deles e não nos valorizam" porque é rigorosamente verdade. 
Um/a professor/a do Ensino Básico ainda pode dizer que "toma conta", embora seja - infelizmente - cada vez menos verdade porque de facto já trabalha por "blocos letivos" de duas horas e no "recreio", quem "toma conta" é a Auxiliar (a "empregada").
Mas nos 2º, 3º ciclos e secundário, são os alunos que tomam conta uns dos outros, para o bem e para o mal e para o melhor e para o prior (aliás, estas 'bolsas de vazio' são também o espaço do buliyng). 
E é aqui que os/as escolas/colégios privados fazem a diferença (e eu sou e gostaria de continuar a ser defensor da Escola Pública): apesar de se manter o modelo letivo INADEQUADO "monodisciplinar por fraçoes" de 50 minutos, ALGUÉM COM ROSTO "está com" os alunos e humaniza e pessoaliza a escola, identifica-os com, cria para os alunos um "grupo de pertença".
Em 1971 foi publicado em Portugal o livro de Evan Hunter "Sementes de Violência" que relatando factos sociais na educação de cidades em vias de massificação escolar, alertavam para os perigos desse fenómeno os/as educadores de países em desenvolvimento, como o nosso (a Escola de Massas, em bom rigor, está entre nós desde o 25 de Abril de 1974). E ao cabo de 40 anos em que - também cá - se assistiu à massificação escolar e à secularização dos fenómenos de que agora se queixam os professores, pergunto: Quantos/as professores/as e responsáveis pelas políticas educativas leram - por exemplo - este livro, ou "como um romance" de Pennac, ou outros que não estão nas "leituras curriculares"?...
A Surpresa para mim é que mesmo professores do quadro disciplinar das "Humanidades" (as antigas "letras") são parcos em leituras, ficam-se pelo "manual escolar".
Para poderem dizer que "tomam conta deles " (pelo menos) 15 anos, reivindicam um modelo de ensino diferente, mais grupal e por seminários, pelo menos até aos e 3ª Ciclos. "Vivam" na escola e com a turma, como acontece na Jardim e Infância, na pré-escolar e ainda no 1º Ciclo. Esse modelo do professor "monodisciplinar" por blocos. de professor "visitante" que ministra a aula na sala X, será aceitável a partir do 3º ciclo e na Universidade.
É incompreensível - e, porventura, intolerável - que década a década as coisas piorem e a única coisa que aumenta são as reclamações opostas de pais vs professores.
Concluindo, se os professores usassem o seu poder reivindicativo - que é incomensurável quando comparado com o de outras classes/grupos sócio-profissionais [1] - para MUDAR MAIS O/NO ensino, todos, incluindo os professores, teríamos muitas menos "razões de queixa"...

[1] - poder reivindicativo, privilégios de casta e de "grupo especial à parte":
- se um/a recém-licenciado/a conclui uma licenciatura da "via de ensino", passa a ser "um professor no desemprego";

- mas o recém-licenciado em fiscalidade, contabilidade ou gestão; engenharia ou biologia, é apenas um desempregado licenciado;
- são frequentes e recorrentes as notícias sobre o cansaço, a desilusão e não sei o que mais dos/as professores/as;
- há muitos grupos sócio-profissionais onde esses níveis de exaustão e desilusão são incomparavelmente maiores, trabalham num padrão de 50 horas semanais, têm um regime de férias que equivale ao regime dos feriados dos professores - ah! e as férias dos professores?... quem não queria o regime de férias dos professores da escola pública? - mas aguentam, porque não são "classe" e não têm poder reivindicativo; e porque não são "classe", ninguém fala deles;

- é elevadíssimo o número de profissionais da PSP e GNR  - cuja remuneração é de cerca de um terço das dos professores - que se suicidam nos quartéis e nas camaratas, por não aguentarem mais;

- e proporcionalmente, é maior o número de professores que recorre ás baixas plurianuais, mantendo o vencimento e apenas deixando de receber o subsídio de alimentação... por não aguentarem mais;

e são apenas dois dos muitos "mosaicos" possíveis sobre a igualdade e a "coesão social"..


ENTREVISTA




“Confiamos-lhes os nossos filhos durante 18 anos”, mas não os valorizamos

Três perguntas a Joaquim Azevedo, coordenador do inquérito As preocupações e as motivações dos professores.
Joaquim Azevedo gostava de saber "porque é que a sociedade portuguesa e os seus dirigentes políticos não valorizam os professores" RENATO CRUZ SANTOS


Escreve em As preocupações e as motivações dos professores, o seguinte: “É como se um pessimismo endémico tivesse tomado conta da educação escolar.” Pessimismo (e também insatisfação) que é maior entre os inquiridos no ensino público do que entre os do privado. Como explica isto?
As diferenças podem explicar-se por vários motivos: no sector privado há, tendencialmente, mais estabilidade das equipas docentes, uma vinculação diferente ao projecto da escola..."

sábado, 7 de julho de 2012

Temas fracturantes I: O direito à greve

Greves ou chantagem social?...

Quando se secularizou o direito à greve,  a greve consistia materialmente no facto de trabalhadores empregados em sectores de mão-de-obra intensiva ou assalariada, miseravelmente pagos por um trabalho escravizante, no limiar da sobrevivência e sem literacia ou representatividade (ou poder) social poderem, pelo menos, parar de produzir bens, parar de extrair os minérios, para resistir à miséria que lhes era imposta, para exigir que lhes fosse aumentada a mísera paga salarial, algo como, "por estes salários de fome, não trabalhamos, paguem-nos um pouco mais ou não trabalhamos" 

Poupando a descrição diacrónica do que foi a evolução (ou involução) do trabalho assalariado no último meio século e mais particularmente nas três últimas décadas, pergunta-se,
 - EM QUE CONSISTEM AS GREVES ACTUALMENTE?
-  Quem tem direito a fazer (e faz) greve?...

As greves do século XXI têm outra consubstanciação material, isto é, já não se trata da recusa de produzir riqueza quandop se é mal ou insuficientemente pago, ou reclamar contra calamitosas faltas de segurançano trabalho, consistem no facto de determinados operadores (ou trabalhadores) de serviços essenciais, e uns directa outros indirectamente integrados no Estado suspenderem a sua laboração, a prestação desses serviços, criando problemas sociais ao instante de forma a pressionar a administração do Estado para ceder às sua reivindicações. Então, 

- QUEM SÃO OS “TARBALHADORES” QUE FAZEM GREVE HOJE EM DIA?...
- SÃO QUAIS OS ASSALARIADOS QUE AINDA PODEM RECORRER À GREVE?...
- DE QUANTAS GREVES DE TRABALHADORES ASSALARIADOS, FABRIS, SE OUVIU FALAR NOS ÚLTIMOS 5 ANOS, por exemplo?

- Que greves se atrevem a fazer os trabalhadores precários, os do já mais de um milhão de trabalhadores dependentes contratados a recibo verde, os trabalhadores de call-centers contratados a prazo pelas empresas de out-bound/out-sourcing, etc.?...

- Porque será que se não regista uma greve de motoristas da Galp há mais de uma década, o mesmo acontecendo com os distribuidores postais e muitas outras centenas de milhar de trabalhadores que estando de facto numa relação de trabalho dependente têm que se colectar até como empresários em nome individual para fazeram a sua prestação de trabalho?

Que estranho paradigma é este que preserva o direito à greve a trabalhadores que não têm um contrato de trabalho mas sim um contrato de provimento vitalício ou a uma  pequena parcela dos trabalhadores dependentes (os tais das empresas do estado ou por ele suportadas), ao mesmo tempo que os trabalhadores mais mal pagos, com menos condições de progressão de carreira, mais socialmente desprotegidos deixaram de poder usar de todo esse direito?...


De há uma década para cá, pelo menos, sempre que é noticiada uma paralisação de trabalhadores fabris, esta já nada tem que ver com a greve por melhores salários, por regalias laborais ou sociais, antes é a paragem e é a resistência derradeira a meses de trabalho por receber, é a indignação e o  desespero perante a insolvabilidade, as contas em atraso, as expectativas defraudadas. São paralisações  noite e dia em condições confrangedoras, com vigílias sofridas para evitar a dissipação dos bens que  possam ainda garantir não um aumento, não uma redução de horas de trabalho, não uma redução na idade da reforma, mas tão só uma parte dos meses já trabalhados e a preços de miséria


Ao mesmo tempo, tomamos conhecimento de greves sectoriais (logo, mais greves porque desmultiplicadas), dos professores, dos técnicos tributários, da Carris, do Metropolitano, da Transtejo, da CP, da Tap... mas não há notícias de greves na Transdev, no Barraqueiro, na Viagens Resende...estarão estes motoristas todos mais bem pagos que os da Carris, por exemplo?...

Sendo direitos apenas aqueles que é possível exercer, afinal existe o direito à greve para todos os trabalhadores?

Que igualdade prática ou material há actualmente no uso do direito à greve?...

- Quando fazer greve passou a estar ao alcance de apenas alguns e sendo esses alguns os que já beneficiam de um estatuto positivamente diferenciado, estaremos ainda perante um direito ou já perante um privilégio?...

- E se essas greves e a sua frequência são inversamente proporcionais às dos demais trabalhadores, estaremos perante um privilégio ou um abuso de direitos?...

Quando trabalhadores da produção de bens ou serviços (transaccionáveis e em entidades de escopo lucrativo) paralisam a produção numa atitude que se traduz em algo como "por tão pouco preço, não produzo" e a consequência se reflecte estritamente nos lucros do seu empregador, estamos perante o uso do direito à greve;

mas quando professores, médicos, outros funcionários do estado, seja, da esfera da prestação dos serviços sociais do estado (saúde, educação, justiça, segurança, etc.), sejam funcionários da própria administração, todos com patamares remune-ratórios e de regalias muito acima dos seus pares privados, que não produzem, bens ou serviços transaccionáveis e  geradores de riqueza e mais valia, suspendem a sua laboração e congelam os seus serviços até que os prejuízos e o descontentamento social provocados sejam preocupantes e o Governo ceda às pressões, ou ainda, 

quando os operadores de empresas do estado (ou por ele suportadas) param de transportar trabalhadores, funcionários, prestadores de serviços, causando paralisação subsequente e criando os mesmos prejuízo descontentamento, i.é., 

quando afinal a sanção não seja imposta estritamente ao empregador, antes se use uma espécie de retaliação sobre reféns alheios ao conflito (sendo os reféns a própria sociedade, a população laboral das linhas de Sintra ou Cascais, turistas retidos ou bruscamente num aeroporto), podermos dizer que estamos ainda perante o mesmo direito à greve, isto éestaremos de facto em presença do direito à greve como ele foi secularizado, ou perante actos de chantagem social???

Ardina


Temas Fracturantes III: O Sindicalismo burguês

Entre o fim da década de 60 e o início da década de 70 dificilmente um funcionário de repartição (finanças, notário, registo civil, etc.), ou mesmo do ensino, ganhava mais que um "artista" (marceneiro, estucador, pedreiro, serralheiro, etc.). O Tesoureiro da Fazenda, por exemplo, auferia aproximadamente 1.200$00 escudos por mês e qualquer pedreiro poderia fazer 1.500$00 ou 1.800$00 escudos. Havia uma ética no modelo de empregamento de funcionários do salazarismo: o funcionário público, o Servidor do Estado, trabalhava menos horas, tinha um horário mais fidalgo (começava às 9 e não às 8 ou 7:30H), sem tanto esforço físico (o tal trabalho limpinho), com muito menos riscos laborais...

Havia uma ética e uma lógica de compensação tácita: deixa lá o serralheiro e o espingardeiro ganhar um pouco mais que tu. Tu ganhas menos esse bocado mas, em contrapartida, além das benesses que o tipo aqui do blogue já referiu no parágrafo anterior,  vou dar-te mais algumas regalias especiais: vou garantir-te emprego vitalício, não sofres essa ameaça de despedimento ou falta de trabalho, trabalhas abrigado e não à chuva, ao vento, ao frio ou ao sol do estio...vou criar um subsistema de previdência só para ti, vou criar um sistema de acumulação que te vai dar uma reforma melhorada, compreendo que se ganhaste menos não fizeste tanto aforro como o pedreiro cabouqueiro ou o serralheiro, mas vais ser compensado depois, não te preocupes, vais receber da Caixa Geral de Aposentações e um bom bocado acima do que receberão eles pela Caixa de Previdência, percebes, quem sabe se te não virei a pagar o mesmo ordenado mesmo quando te reformares. Portanto, tento, tino e sensatez: se já te dou tudo isto, não me peças que ainda te dê um salário nominal superior ao deles ou ainda me arranjas uma revolução...

- Mas fizemos mesmo uma revolução em 74, contra monopólios, desigualdades e certas concentrações de "direitos". Como explicar então que menos de 40 anos depois estejamos nesta estranha e distorcida realidade, em que afinal tu, oh FP, acabaste por concentrar tudo para ti: Emprego e emprego fidalgo, estável, duradouro, definitivo; salário duas, três, quatro, cinco e mais vezes acima da média do deles; manténs o regime de assistência na doença privilegiado, uma reforma antecipada e por inteiro[1]...

Eu sei que soubeste mexer-te muito bem nessa relação promiscua e mercantil do "centralão" e que graças a ti se sedimentou esta alternância oligárquica, o rotativismo reeditado,  lixaste-os bem, puseste-os a pagar-te a eleição deles e os mais parolos, arrivistas e presunçosos como o Cavaco (o "pai do monstro", como te lembras) pagaram-te vitaliciamente a sua reeleição. Mas isso não chega para explicar como chegaste aqui. Nem mesmo os Cavacos fazem tanto sozinhos. Entretanto, reparei que se antes chamavam ao marceneiro, ao carpinteiro, à costureira ou à empregada comercial "trabalhadores" e a ti chamavam-te funcionário público, agora chamam àqueles "precários", "desempregados", "inimpregáveis" ou beneficiários de rendimento mínimo e ti... "trabalhador". Pertences a essa minoria que não só tem emprego como vitalício, já quase és  o único que se mantém sindicalizado porque ganhas o suficiente para "pagar" ao sindicato e és também dos poucos que fazem greves,  porque apesar de tudo não sofres represálias. Como conseguiste este monopólio. Explica-me, quem te ajudou?...

[1] - É verdade, és da geração de pais que ante-herdam dos filhos. A tanto chegou a (tua) civilização, pela primeira vez na história da humanidade é a geração de pais que é pária dos seus filhos, isto é, és a geração de pais que é pária dos próprios filhos. Para suportar a despesa pública que tu não admites reduzir pela (pouca, não é verdade?![2]) parte que te toca, pede-se dinheiro emprestado e este será irremediavelmente pago pela (tua) geração seguinte. Vê lá tu, na gleba era o senhor feudal a explorar as crianças, na revolução industrial era necessário o esforço delas para que a miséria fosse menor, no Sec. XXI é a tua geração de pais que a cada dia 23 tem depositado no banco o seu irredutível vencimento que está a submeter à exploração próxima-futura os seus filhos e os filhos dos seus iguais. Estes governos com quem tu tens mercadejado as maiorias nestas últimas décadas, para continuarem a ter dinheiro para, depois de satisfazer os seus próprios e perdulários gastos, te poderem retribuir  nos valores e patamares dos teus direitos adquiridos, ou não te empregam os filhos ou, se o fazem (e apenas precariamente), propõe-se pagar-lhes, sejam enfermeiros, psicólogos, nutricionistas, etc.,  4 euros por cada hora efectiva e trabalho. Deixa-me explicar-te melhor, a ti que és, por exemplo, professor de EVT, que tens 55 anos, que estás muito cansado, coitado, e até já beneficias da redução de duas unidades lectivas, já só das das 18 horas de aulas por semana ou menos mas não abdicas dos teus 14 vencimentos: sabes quanto ganharias se te pagassem ao preço que, graças a ti, é o que impõem agora aos teus (e aos meus) filhos?...
- É fácil, conta comigo, 4 euros vezes 18 horas, igual a uma semanada de?...

[2] Eu sei, estás danado e a pensar que não é contigo nem com os teus 2/14 avos que eu me devo preocupar, devo olhar para as reformas milionárias, para os gastos supérfluos, para o desperdício...

Mas, se bem te lembras, os deputados da AR disseram o mesmo. E por isso, até se aumentaram quando por toda a parte se perde rendimentos. O mesmo pensaram e fizeram os governantes e por isso ganham mais 5% que os anteriores. Os das reformas milionárias dizem-me o mesmo que tu, que não é por mexer no deles que se vai fazer a diferença, são tão poucos...
Sabemos bem o pouco que importa a nossa coerência ou a nossa consequência e o que se achamos que se deve exigir do outro. O Outro é que é o problema e a solução é mexer no ou com o outro.
Mas é esta a principal diferença entre ti e os os povos do norte desta mesma Europa, aqueles que mantêm sobre ti os tais 100 anos de avanço: Eles, que são protestantes, são também kantianos naturais, "agindo de forma tal que a máxima da sua acção seja lei universal". Sabes como é que agimos aqui mais a sul e mais a sol, católicos devotos, tu, eu, os demais dos 2/14 avos preservados, incluindo os das reformas milionárias?...
        - agimos de forma tal que a máxima da nossa acção seja sempre... lei de excepção!

Ardina


sábado, 5 de maio de 2012

Mas que classe da mé(r)dia!

O Ardina 
Como diria o Sr Costa do café dias depois, "a promoção do pingo doce não foi a pensar nos mais pobres, quem ganha o salário mínimo já o deve ainda o mês não começou e no fim do mês, mal recebe, fica de novo de mãos vazias e nem 50 euros tem para fazer as tais compras no valor mínimo de 100 euros!". É absolutamente verdade. Este deplorável golpe de arrogância + humilhação, de sobranceria + submissão foi proposto/dirigido apenas àquela que é historicamente a mais PROSTITUTA E COLABORACIONISTA das classes sociais, a "classe média", e esta, mais uma vez, colaborou. Não recuando muito mais na história, é a mesma classe média sensorialmente dominada pelo esófago que levou ao/tolerou o Governo de Vichy, é a do Chile de 73, é a da Espanha falangista e do golpe de Tejero Molina. Por cá e neste Portugalete, é a que se fez senhora nas colónias africanas, é a que confirmou Marcelo Caetano nas eleições de 69 e de novo nas de Outº de 73 mas que seis meses depois (a 26 de Abril de 74) sai à rua de cravo na mão para festejar a liberdade mas apostou no sindicalismo amarelo-moderado, é ainda a mesma que há quase 30 anos alterna entre o ultra-liberalismo cavaquista e o neo-liberalismo dos socialistas, elege o Cavaco e o cavaquismo, depõe o Cavaco, repõe Cavaco e cavaquismo nas mesmas ou noutras embalagens, conforme cada um destes dois grupos de merceeiros lhe vá mantendo a medíocre expectativa duma subidita do poder de compra para mais um ou dois sacos de mercearia em promoção (mesmo que no limiar dos prazos de validade), para mais uns farrapitos nos saldos pós-natalícios, ou aproveitar idênticas promoção para fazer uma viagem aos trópicos nas férias da Páscoa. Somos todos povo mas a "nossa" classe média nunca quis ser o Povo, nem antes, nem depois do 25 de Abril. A palavra Povo tem para a classe média um estigma milenar de pobreza que lhe não agrada, não satisfaz a sua ferida narcísica nem serve à sua narrativa pessoal e social e sem um quadro heráldico pós-moderno que atribua (de)graus e distinções, faz-se (ou aspira a ser) doutora e/ou a ter filhos doutores. Doutores professores, doutores escribas, doutores funcionários, doutores administrativos, doutores funcionários-bancários, mas doutores. Povo é que não!
Não se surpreenda por isso quem viu o que cá se passou nas tais promoções e como mais um (e apenas mais um qualquer) Ebenezer Scrooge  contou com a colaboração desta "classe" sua colaboração para tentar aterrar sob detritos/esterco biológicos e não biológicos (cascas de cebola, folhas amarelecidas de couve, penca e alface, embalagens plásticas de óleo vegetal ou de detergente, etc.) o dia 1º de Maio. A classe média não faz registos nem valorações a este nível. Faria, quando muito, se a mesma promoção coincidisse com o aniversário de casamento, ou com a festinha de aniversário dos filhos em idade escolar, ou o aniversário da formatura dos filhinhos doutores e ainda assim não passaria disso mesmo, um mero aborrecimento formal, porque noutro qualquer dia, mesmo à semana, atestaria um qualquer artigo-quarto que lhe justificasse a falta ao trabalho. Perdão, ao emprego.

Há umas boas três décadas atrás Claude Lelouch realizou o filme Les uns et les outres e mostrava da II Guerra Mundial as ambiências, aspirações e sobrevivências à margem dos estritos cenários de Guerra, bem como o pós-guerra mais imediato. Mais musical que historiográfico ou sociológico,  o filme não deixa de ter como tema central a II Grande-guerra e das múltiplas estórias paralelas que narra, destacaria para dela me servir como alegoria sobre a classe média a estória de uma francesa que manteve o (ou até subiu no) seu estatuto...dando-se muito bem com os ocupadores nazis. Na minha alegoria (e dele, Lelouch, estória), logo após a libertação, o Povo premiou com humilhação e ostracisação (até com alguma barbaridade, confesso) o espúrio e ultrajante colaboracionismo da dita compatriota francesa. Pena que na História o não tenha feito ainda e resoluta, cabal e definitivamente.

O Ardina